Monday, May 15, 2006

histórias tristes para crianças contentes

PARTE I

era uma vez um menino que tinha um pião e sempre o trazia na mão. gostava de ver o pião a girar, a girar, mas não o sabia lançar. quando o pião girava o menino ascendia e passeava sonhos distantes, inalcançáveis, olhando a corrida louca das voltas que o pião dava. eram outras as cores, outros os sentidos, outras as formas que visitavam a mansão do menino do pião quando este girava sem fim.
ops!
mas o pião não girava sem fim. e o menino sabia disso. mas enquanto ele girava nem disso o menino se lembrava rodopiado ele próprio num carrocel de mil cores e formas e idéias e sabores. quando o pião caía, quando o pião parava, tudo parava, tudo tinha fim, e o menino acordava, acordava, e o sorriso que lhe pintava a face adormecia, morria, transformava-se num lago calmo de tristeza por tudo acabar assim.
a tristeza breve chamava a ânsia que levava o menino a procurar alguém que ao pião soubesse lançar. queria, outra vez, esse mundo sem fronteiras nem limites voltar a visitar, voltar a habitar. e, aqui ou ali, lá o menino encontrava quem ao pião soubesse lançar. e, de novo, viajava. e, de novo, esquecia que há sempre um fim, que para tudo há um fim. olhos fixos no rodopio louco do pião, projectados para um distante além, o menino voltava a viver verdadeiramente, a ser-se pleno no momento, a ser-se em pleno do momento, sem nas idéias esconder antes ou depois, sem co'as idéias trazer passados ou futuros. e ali, nada tinha fim. o fim do sonho e da viagem era a queda do pião. se ele nunca caísse...
se ele nunca caísse, se ele nunca parasse, o sonho, a viagem, o momento nunca haveriam de terminar. mas uma vez o pião caiu, parou e o menino despertou e procurou alguém que ao pião soubesse lançar. procurou. era indo à beira-mar. encontrou outro menino. mais alto, mais forte e mais gordo que se ofereceu para lho lançar. o menino, contente de o ir ver girar, passou-lhe o pião e a corda prá mão aguardando seu pulsar. confiante o menino estava sem saber desconfiar. o menino mais forte e mais alto fingiu ao pião enrrolar e atirou-o, com força, ao mar. o menino, boquiaberto, ficou a olhar. toda a linha que o pião desenhou rasgando a ar o menino acompanhou em seu olhar que o tentava desmesuradamente agarrar. o pião caiu no mar. o menino mais alto, mais forte e mais gordo ria mas o menino sem o pião na mão nem o ouvia. o pião tinha caído no mar. o pião tinha caído no mar. era preciso ir-lo buscar. o menino correu, em direcção às ondas do mar. correu. para o mar. o menino entrava no mar. corria, seu corpo desaparecia coberto p'las ondas do mar. o menino não sabia nadar. o menino não sabia nadar.
PARTE II

era uma vez um menino
que estava a pensar
encontrar outro menino
nesse lado do mar,
o outro lado do mar.

e de tanto pensar
jesus (seja lá ele quem
ou o que fôr:
homem pregado na cruz,
pretexto da causa d'alguém,
filho de um deus maior
ou mesmo de adamastor)
recompensou-o.

estava o menino sentado n'areia
olhando o mar
sózinho a pensar
quanto de bom seria
nessa mesma areia encontrar
um menino que um dia
o viesse acompanhar
em toda a sua tropelia
brinquedo de solidão
com o ar, a areia e o mar.

estava o menino a pensar!
que esses dias tão vazios
e tão calmos, e tão frios
poderiam animar se
outro menino houvesse
para rir, e falar, e brincar.

assim, como ali estava
envolto p'la solidão
e co'os olhos cheios a ondas de mar
os dias custavam a passar
estava o menino a pensar
olhando o mar.

uma onda, lá longe, se avivava
e subia, e subia
e erguia em sua crista
uma mão que apelava
ou dormia, ou jazia.

e o menino, co'os olhos cheios de mar,
notou a mão a acenar
e levantou-se
para melhor poder observar.

era a onda que trazia
uma dádiva do mar
pra quebrar a solidão
pensava o menino contente então.

as ondas, uma a uma, ripostavam
na areia que de cama
se tornava travesseira.
nenhuma era a última nem a primeira.
e aquela que se erguia
e subia, e subia
já quase num leito trazia
o que o menino ansioso
estava n'areia a esperar:
um outro menino nesse lado,
o outro lado do mar.

à medida que se aproximava
a onda que o transportava
acalmava e descia
como se não quisesse magoar
o menino que trazia
a est'outro lado do mar.

e o menino que na praia
vivia com a solidão
já nem dela se lembrava
já nem solidão sentia
esperando que uma após outra
as ondas dessem lugar
àquela que lhe trazia
essa dádiva do mar.

e a onda, deleitosa,
finalmente se espraiou
deixando dócil na praia
um vulto de menino
que a ess'areia doou.

o menino que a esperava
correu embriagado
deixando para trás a solidão.
era um menino encharcado
que na mão trazia agarrado
um brinquedo, um pião.

ah solidão, solidão
esta esperança que côr dara
ao cinzento de sua canção
mesmo assim evaporara
havia sido traída
não encontrara a saída.

o menino que o mar trouxera
era um menino sem vida
só lhe restava o pião.

Tuesday, May 02, 2006

A casa dos meus avós

Naquele tempo eu não via
e a humidade cansada imiscuia
o negro no branco cal
eram horas de luz intermitente
madeiras, petróleo, a trempe

Ao canto da sala única o braseiro
evocação de mistério e viagem
o ferro tisnado, o barro enegrecido
e o crepitar da chama companhia de abrigo

Madeiros traçando o tecto
janela quadrada e funda
uma cortina como porta
um xaile negro, uma cinta

De barra azul tão gaiata
tão anciã tão primeira
por cabeleira a parreira
o forno e o poço por graça

E pelas horas invernis
depois da tarde passada
estórias e vinho tinto
canções e linguiça assada

Monday, March 06, 2006

Os demónios da minha ventura
são toda a clausura
que em mim comprometo.

São os medos o soneto
da mais triste desventura
perseguida e lacerada
repetida adulterada
aflorando a dor no peito
que não mais se põe direito.

São as caras de pequeno
essas caras - o meu demo
as raízes entrepostas
os princípios feitos ostras
de mim guardam que conheço
quando exposto a tais bostas
e no seu jogo pereço.

Os meus medos da loucura
e a ânsia toda dela
os fantasmas noite escura
que me chamam à janela.
O querer ser tudo o mais
e o ficar mal sem o ter
ser jornal e ler jograis
e acordar ainda a ler.

Acordado quero-me turvo
numa estrada rectilínea, eu curvo
mas imposto a um papel
todo eu lhe visto a pele
faço tudo o que não sou
sou actor actor não sou
sou uma linha de cordel
ponta por onde o rapel
risque a corda e o nível
e o novelo se esqueça dele
pra cair em sobressalto
lá do ponto bem mais alto
e ousado tenha medo
do seu tão próprio segredo.

Thursday, January 05, 2006

O tempo corre duplicando o percurso. Uma face difere da outra ao ponto em que se tocam e enleiam. Os poros gotejantes libertam e confundem as micro-químicas e o desejo completa a equação. De mãos tisnadas pelo amor reemprendo o fogo da descoberta. Procuro as tuas mãos nas palavras que vou deitando ao papel. Os teus olhos imagino de água e curiosos de saber quem são. Por detrás desta página há outra que corre em sentido inverso. O relógio caminha a tempos diversos e um ponteiro passa pelo outro sem vê-lo. Queria entender a melodia da luz. "Tenho mãos líricas de ladrão de luas" Amo todas as criaturas do mundo até encontrar a que persista. Encho os papéis com palavras por não ter boca onde as despejar nem pele onde as desenhar. Acaricio o discurso como se fosse o teu eco.

Saturday, December 17, 2005

Poderia tecer os mais brandos versos e nunca encontrar o âmago de ti
Poderia calcorrear os mais recônditos lugares da tua alma e nunca vêr-te de verdade
Poderia tentar entontecer a tua génese e lançar sobre ti o meu encanto e nunca saberia se vacilavas com a minha presença, se derretias ao meu toque, se tudo o que querias era o mesmo que eu
Poderia serpentear assim querendo acreditar que também acreditavas, querendo querer que também querias, querendo amar que também amavas.
Só uma palavra tua poria côbro a esta deambulação, só uma palavra tua de voz, boca, face e olhos como as palavras que valem de verdade, como as que se dizem poucas vezes na vida, entregues e definitivas sem questão, crentes e despojadas, rendidas e conquistadoras, esclarecedoras, permanentes.

Thursday, December 01, 2005

Disperso o silêncio nos dias
tal qual versos fugidos
Esparsas são as alegrias
e os gestos
contidos

Não são só de dores os sabores que a mim tocam
mas de amores não vejo as cores
Mesmo quando seus olhos me dotam
respiro na sombra os rumores que despontam

Tuesday, November 22, 2005

Quando o meu mar não caiar mais as derrotas
com a tinta ténue do vento
erguerei dos destroços
uma pena perdida do pombo
e cantarei com ela
os desenhos desta voz calada

Wednesday, November 16, 2005

Num canto disperso entre tantos
abri outra vez a janela ao olhar.
Avistei paisagens de verde clorófilo vivo
florestas densas em serras ancestrais
gentes outras arquitecturas distantes
rios desconhecidos ribeiros incertos
costas dissertantes mas não parti.
Quedei-me sonhando sentado pelas esplanadas
à espera de passar musa minha
ou travo de conversa.
Vagueei pelas praias do meu mundo
onde me prostei ao sol e escrevi
e ouvi o rumor das ondas
o eco do cocktail de vozes humanas
infantis.
Em tudo um assomo de solidão
uma fome de alma gémea
um vazio de comunicação
a ausência da paixão.
Falta-me um silício
uma seta
uma anuência ao olhar
um ponto de partida e a revolta
o retorno e nova ida
um rio sem precipício por foz
uma linha sem fim por início

Monday, October 24, 2005

Deixei-me guiar guiado
fraqueza desesperado
o cilindro avança oco
e eu cá dentro como um louco
estrebucho desencantado
o que faço sabe a pouco
busco em vão de cada lado
a saída deste fado
que se cola a mim caduco
Peço ajuda às alminhas
que encontro pobrezinhas
fora da realidade
por não querer mais ladainhas
confundo-as com as minhas
na procura da verdade
ausente e sem idade.

Thursday, October 13, 2005

Chegou o tempo da dor
O meu olhar é segredo
e ardor só o do teu
que desfere em mim sinais

Chegou o tempo amor
de te perder com o medo
de perder-te prós demais

Só tu e eu esta noite
vamos pintar arraiais
Só tu e eu nesta noite
como em nenhuma jamais
Só tu e eu nesta noite
resguardados dos chacais

Só tu e eu esta noite
como em nenhuma jamais

Chegou o tempo da dor
O meu olhar quase a medo
procura no teu pouco mais
que o teu silêncio segredo
revela já por demais

Chegou o tempo e o calor
das aventuras que tais

Só tu e eu esta noite
vamos estoirar ideais
Só tu e eu esta noite
de pensamentos brutais
Só tu e eu nesta noite
como outra noite jamais
Só tu e eu e esta noite
de decididos finais

Friday, October 07, 2005

No teu corpo eu componho as sinfonias do teu sexo
Nele acordo nele me ausento nele embarco no teu excesso

No teu corpo eu decifro as melodias do teu sexo
Nele reinvento nele persisto nele viajo nele sem nexo

No teu corpo eu me aventuro nas magias do teu sexo
Nele aposto nele conquisto nele exploro o mais convexo

No teu corpo eu extasio nas orgias no teu sexo
Nele me venho nele me fico nele me passo a teu reflexo

No teu corpo eu introduzo a energia do meu sexo
Nele batalho nele mergulho nele volteio nele ejecto

Saturday, October 01, 2005

Todos os dias escrevo um poema
mais parado ou mais mexido
mais bizarro ou (in)compreendido
mais espalhado ou mais contido

Pode ser em verso
em linhas que se alongam de escrita em prosa
nascer da maré do vento
do trabalho dedicado duma grosa
com dosagens de alquimista
de cor de sonho e som de rosa

Todos os dias escrevo um poema
de endereço conhecido
és tu sempre o seu dilema
o meu tema preferido

Para torná-lo verdade
chego a pesar de hora a hora
os ritmos e as palavras que anseio
terem dom de serem tora
do amor que premeio

Todos os dias és tu o poema
Todos os dias o reponho
Todos os dias sei que amas
Todos os dias sei que sonho


(E não sendo assim talvez
o basso e lerdo cansaço
chegasse um dia à vazia
e certa monotonia
que rouba à paixão a poesia
e leva o amor ao fracasso)

Wednesday, September 28, 2005

Penso em ti com um rio encostado à face.
Os teus olhos multiplicam-se no ecran do meu pensamento
e flainam no ar salteados nas muitas expressões que de ti revejo.
Retomos os aromas da tua voz excitada pela violência do amor,
o meu nome escapulido das tuas entranhas e solto em tons roucos e guturais
brindando-me a pele como se se agarrando sôfregamente ao sexo que fazemos.
Do teu corpo faço o meu mar, todo o mundo que navegamos,
descobrindo palmo a palmo poro a poro, de estertor em estertor.
No campo de batalha do nosso amor teus olhos são estrelas
e planetas em perpétuo movimento nas horas todas que as intercedem.
O teu silêncio, o lado oculto da lua.

Tuesday, August 09, 2005

Já não tenho mais espaço para os versos que não escrevo
para as cartas que não falo
para o amor que não pinto
para os quadros que não faço.
Já não tenho mais tempo para o tempo que não passo.
Passa o tempo e o seu passo é de rápida passada que transforma em passado todo o sítio onde passa.
Passa o tempo e o presente nunca chega a ser morada.

Sunday, August 07, 2005

Desapareço por momentos.
Reencontro-me fora desta imberbe e habituada
relação de corpos e almas próximas.
Estou lá, nesse espaço
no espaço branco entre o turvo e o nada
atrás do passado e à frente do futuro
o próximo momento é o agora e aqui.
Mas antes permaneço.
Permaneço na bruma da área disforme
só eu e o sonho
só eu e tudo o que tenho para ter
e viajo centelhas de anos.
Sou o poeta cego com olhos de ver mais longe
o trovador vagabundo acorde de serenata
pássaro livre gaiato de prosa inacabada
nau náufrago e nauta em oceanos de lume.

Wednesday, August 03, 2005

Parte de mim vive contigo
parte de mim chora em mi

Eu abro a porta ao desconhecido
e o meu ser não sabe de si

O meu sonho é não ficar parado
e passar sempre o lado de lá

Chateia-me o triste fado
de tudo o que pinto ser com dó

Procuro o infinito, a história, a luz
desejo a glória, vejo a cruz
não fico na terra vou para o sol
componho a minha obra em fá bemol
cavalgo as nuvens em si sustenido

Thursday, July 28, 2005

Memórias do Jardas

O jardas que eu conheço vestia de negro. Mas não sempre. Havia dias que o pintalgava de branco. E outros até em que lhe apetecia mais festa e deixava a pele cobrir-se-lhe de uma vontade de usar cores...
A beber... era cerveja que bebia. super bock de preferência, imperial ou de garrafa. Os seus amigos, alguns, preferiam a sagres. Mas a sagres tinha mais picos e a super bock era mais doce; isto na opinião do jardas.
Fosse como fosse, as noites e as madrugadas só aconteciam realmente quando bem regadas por esse líquido primoroso que libertava a alma e orquestrava a partilha nas amizades noctívagas.
Noite sem cerveja e, mais que tudo, sem cerveja e amigos, não contava para a história. É que cerveja puxa amigos e amigos puxam a cerveja. É como os cigarros. E como pretexto de partilhar mais uns momentos em comum se pede mais uma rodada ou se paga mais uma cerveja.

Thursday, June 23, 2005

Estou a morrer.
Coço-me na pele e nas entranhas.
E o que coço são as estradas
e os poemas que quis ser.

Saturday, June 18, 2005

Em que tempo vivemos?

Numa época em que o vazio ocupa a massa cinzenta da maior parte das gentes
Numa época em que os jovens optam pela hipnose da música de dança sem mensagem, ultra repetitiva
Numa época em que crescer para ser grande representa obter um diploma, qualquer um desde que seja um diploma, mesmo que não vá de encontro ao talento individual de cada um
Numa época em que os ideais não vão mais longe que a realização financeira e material
Nesta época, revolvo-me eu em contorções e esgares possesso pelo meu íntimo que me impede de normalizar-me e caminhar sossegado por entre as gentes com a viagem quase assegurada.
Nunca chego a embarcar completamente nem a ficar no mesmo sítio.
Mas o sofrimento cresce, a dor desenvolve e os dias não se vislumbram melhores após os sacrifícios.
Sou malfadado ou mal me fado?
Sou mal dito, mal me dizem ou mal me digo?
Sou omisso ou cobiço?
Sem resposta não desisto nesta caminhada cega.
Pouca glória, muita queda.
Erros idos, repetidos, mas a força subsiste e o alor me segreda que existe, vez em quando, o rumor dos seus lábios diz:
'- RESISTE.'
E sem ele eu vivo triste, ele a causa e o efeito do meu real despiste.

Os dias passam e as famílias são educadas a telenovelas e programas sensacionalistas ou sentimentais.
Os putos vão deixando entranhar nos ossos músicas que repetem insistentemente o mesmo ritmo e as mesmas frases.
Enquanto o povo se entretém, eles, os senhores do poder, das decisões, vão mexendo as suas peças, longe dos olhos comuns, preparando-lhes o caminho que sirva os interesses do jogo e, portanto, deles, os jogadores.
Nós não somos, visivelmente, a revolução mas precisamos dela e de mais gente acordada.

30.novembro.1994

e agora? 18.junho.2005
Derramo as horas na mesa atapetada de pegadas outonais

Friday, June 17, 2005

A vida de um poeta não se constrói de palavras mas de olhares.
As palavras são tormenta que a sua alma inventa pra reinventar os mares.
São os olhos que comandam e a caneta executa do impulso só uma parte.
Se o primeiro vem no vento os seguintes são penosos e sedentos de tal arte.

Tuesday, June 14, 2005

Orbitando esta túnica mutante
dispersa confusão de motes
nas palavras rompentes em catadupa
anseio e náusea dissidentes
no crepúsculo adiado das horas
na acérrima confusão das vontades
na coragem esbatida do salto
nos filamentos que entrecortam as verdades
no augúrio do termo inconcludente
na brutalidade das hesitações precedentes
nas respostas caladas da inocência
na perplexa catárse das evidências
na angústia permanente do sobressalto
insatisfação corrosiva predestinada
melancólica repetição cíclica
labirinto da mesma face nas mesmas escadas

havia um canto articulado em esperanto
ninguém o entendia, ouvia-se
continuamente a um canto, era
a verdade procurada mesmo ali
inalcançada, tão à mão da vida
cantada e preferida mas contida

Thursday, June 02, 2005

A LIBERDADE ESCASSEIA

A liberdade escasseia, os impostos sobem, o buraco abre.
A guerra não para, o som da guitarra distorce em catárse.
Os gritos aumentam, protestos rebentam, lição aprendida.
E tu alucinas, depois desatinas co'a puta da vida.

Morreram três homens, operários das obras, debaixo da terra.
Explodiu outra bomba e fez mais mortos que a última guerra.
O preço do ar deixou sufocar e subiu a galope.
O sô Presidente assinou contrato co'a tropa de choque.

A caça fiscal já apanhou mal uns mil condenados.
O povo trabalha e sofre e batalha e não vê ordenados.
As penas são mais e as interdições estão a aumentar.
Tu já não tens nada, não sabes, não viste, mas tens que alinhar.

Os rios morreram, a fauna extinguiu-se, a flora apodrece.
As ondas do mar trazem sal no ar que só adoece.
Os filhos dos homens não sabem quem foi e não têm saída.
E tu alucinas, depois desatinas, e pagas co'a vida.

Friday, May 27, 2005

Entro no espaço nocturno, na intermitência das cores de luz no escuro.
Reencontro o tumulto da cidade dos muitos corpos que se entrechocam e procuram multidão.
Troco os olhares dos muitos olhos cúmplices nessa ânsia de confronto e confusão.
Tal qual pé na urbe a sede de ver olhos e corpos, movimentos individuais transformados em massa que bole e não para.
'Uma inconstância de todos em vibração' extravasando as energias e os stresses contidos pla rotina avassaladora das vidas que pedem mais.
Soberba essa viagem incontinente que prolifera e contagia, desenvolve e resiste até ao cais dos esforços, da noite, dos desenlaces.
Orgia empática de isolamentos, conforto próprio, engate. A solidão no tumulto da cidade transposta a uma caixa fechada transbordando sons e fumo.
Exercício, transfiguração, atitude e movimento, suor e saliva, líquidos, pele.

Thursday, May 26, 2005

Londres e Reading ficavam a um par de horas de distância quando os pés pisaram Lisboa. Cabeça cheia, sentidos atordoados vivendo ainda as maiores emoções passadas. Toda a gente era pouca e a integridade dos aspectos lusos chocava com os olhos atestando que, apesar da ausência, nada tinha mudado.
Lisboa ficava depois a mais horas de distância de Santandread. O espaço vazio, a falta de gentio, a sede da confusão, a ânsia dos concertos. Andar sem razão, incansavelmente gastando as energias, a adrenalina acumulada.
O pântano, as areias pantanosas, movediças fazendo aluir com o passar dos dias. A calma, a inquebrável monotonia dos dias que se cansam em si próprios, as caras de sempre, os mesmos fatos, as mesmas ruas, as mesmas conversas.
Para lá das nuvens e do oceano ainda a memória dos sons e dos ambientes, ainda a torrente de imagens novas que avassalaram sentimentos, incendiaram emoções, abriram mais janelas e espalharam mais pedaços pela sala.

Thursday, May 19, 2005

O meu silêncio é o mar sem fogo
a revolta à espreita em cada esgar
o pano amarrotado numa só cor

Salivo sílabas que não conecto
o olhar espraia-se longe de tudo e mais de si

O iodo submerge e só a areia fica
vai ali mas volta
ele volta sempre

Wednesday, May 18, 2005

O silêncio do papel
esse, já eu o conheço.
A folha em branco que se senta
junto a mim e fica
a olhar-me, olhos nos olhos,
ou me catrapisca por detrás
do piscar do meu bolso ansiando
um sinal um gesto um gatafunho
essa conheço eu bem.

O que me perturba é o silêncio
que de mim sobra aquele
que em mim reside e
prolonga-se o silêncio da palavra no espaço
do verso que não chega
a acontecer.

Tempo do tempo que lhe é dado
tempo no tempo que a si concede
laivo de graça ou de agitação
brisa de iodo ou penosa busca.

Saturday, May 14, 2005

A MESA VAZIA ESPERA O PRATO QUE EU VOU COMER
POVÔO A BOCA DE AZEITONAS SABEM MAL MAS COMO-AS
A DIGESTÃO ENFADA-ME BEBO CERVEJA PARA A ENGANAR
ROMPO AS NUVENS QUANDO DOU POR MIM A FALAR
SEM CONTER SEQUER AS LÁGRIMAS AO MEU LADO A RASTEJAR
DOU PALAVRAS ÀS PALAVRAS PRA MELHOR PODER CANTAR
O SILÊNCIO É O FIO NO QUAL VAMOS RASTEJAR
SOU CRIANÇA E NESTA ANDANÇA SOU SELVAGEM QUERO AMAR
CONHECER O TUDO E TODO E ENFIM DESABROCHAR
O SILÊNCIO É O FIO DO QUAL VAMOS ESCORREGAR

Thursday, May 05, 2005

eu sou da idade da noite
das musas sem condão
dos fados sem refrão
do choro sem alarido

sou das trevas e das teias
das distantes cassiopeias
do lamúrio do canto
das sereias

Wednesday, May 04, 2005


zdeyes

Monday, April 18, 2005

Eu e Ela

Da imaculada concepção daquela noite surgiu uma estrela resplandecendo mistério e encanto mesmo junto ao espectro lunar de uma escuridão quase lúcida. Intermitente na multiplicidade dos tons convidava o olhar a demorar-se nela e o sonho a submergir no seu mundo de fogo frio. "Take my hand and lead me to the garden of delight".
O corvo cruzou o ar mesmo em frente ao trajecto que o jipe sulcava. Escavado e moribundo, caminho degradado pelas chuvas de todos os invernos, pelas secas de todos os sóis, lentamente arrepiando as mazelas das únicas quatro rodas que o conheciam. Um corvo pode viver setenta anos.
No fim do percurso estava o farol, contínua e viciosamente fazendo circular o seu foco até onde o éter o pudesse escutar. Ah, se eu pudesse ouvir o som da luz!
Quando caminhava vi de súbito aquele vulto quadrúpede explorando o escuro na vegetação rasteira. Estaquei e quedei-me inerme olhando-a. Ela sentiu-me, estacou também. Por momentos ficámos ali, separados por uns seis ou sete metros, frente um ao outro, fitando-nos nos olhos. Depois ela temeu, pela liberdade ou pela vida, e correu pelo espaço aberto, majestosamente, cauda acariciando o ar num equilíbrio de movimentos perfeito e fascinante. Os meus olhos acompanharam esse bailado admirando-a até perdê-la de vista. Nunca mais a esqueci.

Saturday, April 16, 2005

Este retalho pedaço de mim
este momento de demora e hora vazia
esta inconstância de estilo e verdade fugidia

Sombra do que passo alma contida assomo chama
Peça jogada do palco sem vida voz muda que clama

O rosário é o caminho a sede pura a sina
o macabro a incerteza que aos olhos desafina
esconde-se atrás da cortina não se mostra a ninguém
por capricho ou por vintém resvala repete refina

Sines duas horas da matina

Monday, April 11, 2005

Quero ser o amor de toda a gente que amor meu não tenho nenhum.
Não tenho esses olhos que se denunciam nos meus.
Nem essa boca que se completa na minha.
Nem esse corpo por onde queremos ambos viajar.
Não tenho essa voz que me espera, esse eco do meu caminho, esse strip-tease dos pensamentos.
Quero ser o amor de toda a gente para ver se encontro nele o meu amor feito gente.

Sunday, April 03, 2005

a doença dos olhos é a sede da beleza

Saturday, April 02, 2005

Queria o meu mar de tristezas ser um mar de aventuras
Queriam as minhas molezas rebentar as sepulturas
e sair com as certezas no luar das noites puras
mergulhando nas grandezas e nos gestos das ternuras

Queria a minha visão apagar certos retratos
Queria a mesma prisão partilhar sons abstractos
e nos tons dessa canção viajar os mares mais vastos
ser montanha e ser sertão e acampar nos sonhos castos

E nos beijos da loucura nunca conhecer a hora
nos soslaios da candura vislumbrar a doce aurora
embarcar com a lonjura para as terras da demora
e encontrar a noite escura, prontinha, à minha espera.

Friday, March 25, 2005

Salpicado de folhas em branco
pelo marulhar revolto que desenrola a vida
sento-me frente a ti
mergulho nas profundezas longínquas
do meu convés perdido

Tu que não adormeces
senhora dos segredos e das ondas

Nunca febril tarefa conheci
como a de querer pintar e não ser
a tinta das palavras
agarra-se-me ao pincel e seca
antes mesmo que toque a tela

Fico impotente
sem a voz da corrente
seco por dentro
e por fora o texto
não acontece

Noutros momentos abre-se
uma porta e ali outra
janela quem quer ver
a luz está a tempo

É um remoínho de pensamentos
atiram-se ao papel
esfaimados da saudade
libertos da opressão
muda os amordaçara

Deixam chover suas vestes
de gatafunhos querendo
ser corpo
de ideias sem dono
tentando articular-se
fazendo jus à razão
do acto de escrever

Mas se o poema não sai
fica só a dor
e o rasto esquecido de quem não vai

Tuesday, March 15, 2005

A minha televisão passa red hot chili peppers. A minha televisão mostra-me as mais lindas mulheres do mundo. A minha televisão mostra-me o mundo. A minha televisão sabe o que acontece em muito sítio. A minha televisão fala muitas linguas. A minha televisão passa entrevistas com os Faith No More e os Sonic Youth. A minha televisão dá prémios. A minha televisão faz-me rir. A minha televisão desperta-me apetites. A minha televisão surpreende-me. A minha televisão atrai-me. A minha televisão nunca me abandona. A minha televisão ensina-me. A minha televisão aviva a minha perspicácia e a minha criatividade. A minha televisão desperta-me a memória. A minha televisão faz-me sonhar. A minha televisão faz-me pensar. A minha televisão mostra-me a ternura da vida animal. A minha televisão leva-me em viagens. Eu e a minha televisão vivemos juntos. Todos os dias olhamos um para o outro. Ela fala comigo. Eu raramente falo com ela. Mas ela gosta assim. Eu também.
santandread, 1992

pixie e eddy

Monday, March 07, 2005

No fio do serrote

Numa sala cinzenta moravam quatro gatos.
Os quatro eram endiabrados, cada um à sua maneira. Pelo chão abundavam restos dos processos inacabados. A limpeza nunca foi completamente feita. Os restos de comida em sacos de plástico espalhados pelo chão, a areia dos gatos sobrecarregada dos seus dejectos, as fezes secas ou frescas num ou noutro canto da sala, os fragmentos de desperdício ressequidos de diluente, as beatas velhas e as cinzas dos tantos cigarros fumados, as latas destapadas de tinta bolorenta, o exército de micro-mosquitos cruzando no ar a amálgama de odores incómodos.
A desordem era total. Os papéis amontoavam-se por diversos sítios e a falta de relação entre si era evidente.
Caixas de cartão rasgadas, pedaços de fita adesiva usados e encarquilhados, roupa preta suja pisada e desconjuntada repleta de pelos brancos de gato. O chão cinzento marcado pela acumulação incontável de acidentes - nódoas múltiplas, manchas diferentes, borrões diversos.
O caos prolongava-se. As paredes escolhiam determinados cantos para desenvolverem fungos inlaváveis, humidades estaladiças, teias de aranha sem vida. Onde isso não acontecia enchiam-se de letras salteadas, trabalhos plásticos de imagens apocalípticas ou de pura e simples desordem de texturas coloridas.
As noções de higiene e organização haviam sucumbido face à impotência de as proclamar. Os periódicos esforços para reanimá-las e mantê-las, além de infrutíferos na sua totalidade, não eram suficientes para que essas palavras resplandecessem condignamente.
Para os gatos era uma selva que uns exploravam nas suas brincadeiras infantis e outros suportavam não deixando de mostrar o seu desagrado pontual conspurcando ainda mais aqui e ali o que de si já era sórdido e imundo.
Este constante desequilíbrio era causa e sintoma de um outro cada vez maior na rotina quotidiana das mentes humanas que o habitavam. As relações deterioravam-se ao mesmo ritmo do lixo que fermentava, dia após dia, exposto ao sol na varanda do cubículo sem que ninguém desse por ele e o deitasse em local próprio.
Os cheiros concentravam-se, imiscuiam-se, formavam uma neblina invisível e, com a habituação, quase inodora mas presente e incontornável. O meio ambiente, caótico, translúcido, imoral, desenvolvia as condições necessárias à criação de micro-habitats onde florescia a vida de várias espécies de insectos inomináveis, solitários viajantes nos recantos mais insondáveis da sala cinzenta.
Um dia tudo haveria de ruir, ou ser abandonado, ou levar limpeza tal que afastasse para sempre essa abominável força de espaço. E nem os gatos resistiriam.

Friday, February 25, 2005


mr.dadoo
Perde-se o oceano. Fica um deserto de palavras e a vida ausente. Os últimos vestígios de pegadas entontecem, esmorecem às carícias dissimuladas do vento perpetuadoras duma solidão sem rumo. Debaixo do segredo subsiste a água das lágrimas desprendidas pelas viagens crepusculares, aquando do embate entre superficial e profundo, e o desmoronar do castelo de fumaça envergado como armadura.
O longe é já ali. Cheira a futuro e não existe.


Os meus silêncios são multidões em polvorosa na face obscura duma lua derretida. Expresso-me na linguagem dos espaços e das canções, gosto de rimas e melodias, não de repetições.
Um refrão é um beijo despodurado. A evocação dos desejos e das harmonias, lado a lado, mesmo tendo o silêncio por sublime aguarela de fundo do quadro. A equação é difícil, as ideias atropelam-se, o caminho não traçado. Gosto das centopeias, das epopeias, do fado. E das batalhas, das conquistas, das outras vistas para o além do acostumado.
Nas deambulações e nos flainares purgam-se as tormentas e os olhares.
O porvir na génese. Só o presente acontece.
santandread

Thursday, February 24, 2005

Nas Teias de Adamastor

Pôr o corpo a andar
Pôr o corpo a amar
Apaixonei
Nesse teu olhar
Aprisionei

Lá longe no tempo em que bebia a tua pele
Lá longe no vento do sabor desse teu mel
Escrevo na memória sem travão e sem medida
Dependurado na última corda da vida

Com a tristeza que o poeta sente a dor
Com a certeza duma promessa de amor
A chama acesa de paixão fogo e fervor
Cai como presa nas teias de Adamastor

Cristal quebrado vinho tinto a escorrer
Linho ensopado e o coração sangra a valer
Arde o incenso e a memória não se esvai
Só o silêncio desta noite não me trai

Monday, February 21, 2005

habitáculo dos mais ténues caminhos da descoberta
composição das mensagens com pitadas de instinto visual
no caminho obrigatório da irresistibilidade
as propostas dividem-se simbológicas ou texturadas
consequência de plano moroso
efeito de balanço intuitivo entre equilíbrio e acaso
esporádicamente nasce a palavra ou a frase
fruto da interiorização das verdades
incontornáveis expressam a sua energia
singular e acutilante no afrontamento
crítico das evidências de vícios sociais
dissecação dos três planos
atitude de sensibilização estética
ideológica procura de desmassificação
comportamentos e o direito à diferença.

Monday, February 14, 2005

Para uma música perdida

Há muito muito muito tempo
no tempo do vento e do escuro
vivia com seus gatos
num casarão sombrio de tudo

Agrilhoado na sorte
atormentado no canto
o seu corpo tugia
mas não saía do pranto

Por entre os cacos de raiva
enovelados de tédio
tudo o que lhe restava
era uma garrafinha de ódio

Mas na morbidez da clausura
uma voz do fundo dizia
que a noite da loucura
traria cor à luz do dia

Certa noite subiu ao sótão
abriu o baú dos seus medos
e encontrou lá dentro
o maior de todos os segredos

Um pergaminho de lua
e uma gota de estrela
do sol um caracol
do mar o lume numa vela

No meio das descobertas
abertas portas batidas
detrás das portas certas
abertas estavam outras vidas

Incêndios de ouro e de lava
Magias de céus de incenso
Gemidos de prazer
e corações de fogo intenso

Com uma sacola pintada
e uma viola despida
partiu pla estrada fora
à boleia pra outra vida

Friday, February 11, 2005

corri por viajantes da noite

passei por romarias de credo
julguei simulacros de segredo
corri por viajantes da noite
por passageiros da morte
incendiários da sorte

dormi nas ruas escuras de frio
vesti o ser despi o vazio
amei madonas rubras com cio
na água turva do rio
luares de fio a pavio

usei uma fivela de lume
para abraçar um queixume
feito de cinza e ciúme

fumei umas 10 beatas com flauta
dancei com a cigarra da malta
troquei o topo pela falta

a mim ninguém me cala o enjoo
de ser certinho errado e até tolo
ouvir rugir os ecos do som
que são as vestes do tom
que desatina este clã

o bardo a razão a cantiga
o cardo a prisão a amiga
o fim a morte certa no fim
as vozes certas no fim
as doses certas no fim

a mim ninguém me cala a garganta
a mim ninguém sacode da manta
eu sou o demo e a santa

de resto a razão que se explique
porque é que o silêncio existe
porque é que o mar revolto insiste

[amei os viajantes do sexo
troquei orgasmos nulos sem nexo
jantei nas alcateias d’horror
nas trepadeiras sem flor
nos vãos mistérios do amor]

Thursday, February 10, 2005

POLÍTICA

POLÍTICA.
A MELHOR QUE CONHEÇO
É A MÚSICA.
PLURALISTA, TOLERANTE
E HARMONIOSA.

Monday, February 07, 2005

as vozes cruzam-se sem perdão
arco enevoado de promessas falsas
não há termos sem senão
as feridas brecham as mãos descalças

os olhos fogem, perdem-se sem sentido
não se encontram no céu que arrefece
as vozes choram, mentem em gemido
já nem mais o halo permanece

partem-se pedras de agonia
roem escadas da mansão
perde-se o passo e a magia
morrem traços da paixão

é tombada a comunhão

Sunday, February 06, 2005

Do lado de cá do vidro, do lado de cá das imagens que molham o ar, insisto nos recantos que visto, repiso o meu caminhar. É qualquer força que me faz revê-los e constrói o pano de fundo de todas as palavras que espalho no meu cantar. Crio um código, caio nele, e as imagens que eu visto vestem cores de adivinhar as que dispo a dançar. São palavras e são chaves, e são rimas e são claves, são ritmos agudos, graves. Fico a um passo da prosa, a um passo do poema, gozo como quem goza a vitória do seu lema, desespero na dengosa morte de não ter tema. Ás vezes não me levanto, fico deitado muito tempo, o meu ser passeia astros e vagueia sonhos vastos mas inúteis se entanto esta voz eu não levanto. E assim prolongo o meu pranto que é de mais o que eu canto. Quando não são as miragens e as visões embriagadas que me invadem de contento e desse caminho lento.
Oh, ondas do mar
Oh, aves do meu pensar
Oh, lua amotinada
Oh chuva, noite estrelada.

Saturday, February 05, 2005

Le Jardin

O espanto desta sala sombreada em luz
agarra-se a mim e seduz.



Única fresta para a vida lá fora
nua do som dela
e do vento que a namora.



A janela em frente dela
vê raiar o dia, crescer a aurora
passar o sol dum lado ao outro
escurecer até que morto
brilhem jóias, foz tardia
dos noctívagos da folia.



Pois então a sala enche.
Lentamente vão chegando
cada canto acomodando
nesta sala que os conhece.
É deles o som nascente
os risos a voz fremente
que ás paredes agitando
noite a noite os vai compondo.



Quando a têm de deixar
deixam no ar o seu cheiro
da vontade de ficar.



E a sala adormece
com saudade dos que partem.
Cada canto esmorece
e a madrugada enternece
ansiando novo dia
de sabores e a euforia
que da noite nunca esquece.

plosanimais