Friday, February 25, 2005


mr.dadoo
Perde-se o oceano. Fica um deserto de palavras e a vida ausente. Os últimos vestígios de pegadas entontecem, esmorecem às carícias dissimuladas do vento perpetuadoras duma solidão sem rumo. Debaixo do segredo subsiste a água das lágrimas desprendidas pelas viagens crepusculares, aquando do embate entre superficial e profundo, e o desmoronar do castelo de fumaça envergado como armadura.
O longe é já ali. Cheira a futuro e não existe.


Os meus silêncios são multidões em polvorosa na face obscura duma lua derretida. Expresso-me na linguagem dos espaços e das canções, gosto de rimas e melodias, não de repetições.
Um refrão é um beijo despodurado. A evocação dos desejos e das harmonias, lado a lado, mesmo tendo o silêncio por sublime aguarela de fundo do quadro. A equação é difícil, as ideias atropelam-se, o caminho não traçado. Gosto das centopeias, das epopeias, do fado. E das batalhas, das conquistas, das outras vistas para o além do acostumado.
Nas deambulações e nos flainares purgam-se as tormentas e os olhares.
O porvir na génese. Só o presente acontece.
santandread

Thursday, February 24, 2005

Nas Teias de Adamastor

Pôr o corpo a andar
Pôr o corpo a amar
Apaixonei
Nesse teu olhar
Aprisionei

Lá longe no tempo em que bebia a tua pele
Lá longe no vento do sabor desse teu mel
Escrevo na memória sem travão e sem medida
Dependurado na última corda da vida

Com a tristeza que o poeta sente a dor
Com a certeza duma promessa de amor
A chama acesa de paixão fogo e fervor
Cai como presa nas teias de Adamastor

Cristal quebrado vinho tinto a escorrer
Linho ensopado e o coração sangra a valer
Arde o incenso e a memória não se esvai
Só o silêncio desta noite não me trai

Monday, February 21, 2005

habitáculo dos mais ténues caminhos da descoberta
composição das mensagens com pitadas de instinto visual
no caminho obrigatório da irresistibilidade
as propostas dividem-se simbológicas ou texturadas
consequência de plano moroso
efeito de balanço intuitivo entre equilíbrio e acaso
esporádicamente nasce a palavra ou a frase
fruto da interiorização das verdades
incontornáveis expressam a sua energia
singular e acutilante no afrontamento
crítico das evidências de vícios sociais
dissecação dos três planos
atitude de sensibilização estética
ideológica procura de desmassificação
comportamentos e o direito à diferença.

Monday, February 14, 2005

Para uma música perdida

Há muito muito muito tempo
no tempo do vento e do escuro
vivia com seus gatos
num casarão sombrio de tudo

Agrilhoado na sorte
atormentado no canto
o seu corpo tugia
mas não saía do pranto

Por entre os cacos de raiva
enovelados de tédio
tudo o que lhe restava
era uma garrafinha de ódio

Mas na morbidez da clausura
uma voz do fundo dizia
que a noite da loucura
traria cor à luz do dia

Certa noite subiu ao sótão
abriu o baú dos seus medos
e encontrou lá dentro
o maior de todos os segredos

Um pergaminho de lua
e uma gota de estrela
do sol um caracol
do mar o lume numa vela

No meio das descobertas
abertas portas batidas
detrás das portas certas
abertas estavam outras vidas

Incêndios de ouro e de lava
Magias de céus de incenso
Gemidos de prazer
e corações de fogo intenso

Com uma sacola pintada
e uma viola despida
partiu pla estrada fora
à boleia pra outra vida

Friday, February 11, 2005

corri por viajantes da noite

passei por romarias de credo
julguei simulacros de segredo
corri por viajantes da noite
por passageiros da morte
incendiários da sorte

dormi nas ruas escuras de frio
vesti o ser despi o vazio
amei madonas rubras com cio
na água turva do rio
luares de fio a pavio

usei uma fivela de lume
para abraçar um queixume
feito de cinza e ciúme

fumei umas 10 beatas com flauta
dancei com a cigarra da malta
troquei o topo pela falta

a mim ninguém me cala o enjoo
de ser certinho errado e até tolo
ouvir rugir os ecos do som
que são as vestes do tom
que desatina este clã

o bardo a razão a cantiga
o cardo a prisão a amiga
o fim a morte certa no fim
as vozes certas no fim
as doses certas no fim

a mim ninguém me cala a garganta
a mim ninguém sacode da manta
eu sou o demo e a santa

de resto a razão que se explique
porque é que o silêncio existe
porque é que o mar revolto insiste

[amei os viajantes do sexo
troquei orgasmos nulos sem nexo
jantei nas alcateias d’horror
nas trepadeiras sem flor
nos vãos mistérios do amor]

Thursday, February 10, 2005

POLÍTICA

POLÍTICA.
A MELHOR QUE CONHEÇO
É A MÚSICA.
PLURALISTA, TOLERANTE
E HARMONIOSA.

Monday, February 07, 2005

as vozes cruzam-se sem perdão
arco enevoado de promessas falsas
não há termos sem senão
as feridas brecham as mãos descalças

os olhos fogem, perdem-se sem sentido
não se encontram no céu que arrefece
as vozes choram, mentem em gemido
já nem mais o halo permanece

partem-se pedras de agonia
roem escadas da mansão
perde-se o passo e a magia
morrem traços da paixão

é tombada a comunhão

Sunday, February 06, 2005

Do lado de cá do vidro, do lado de cá das imagens que molham o ar, insisto nos recantos que visto, repiso o meu caminhar. É qualquer força que me faz revê-los e constrói o pano de fundo de todas as palavras que espalho no meu cantar. Crio um código, caio nele, e as imagens que eu visto vestem cores de adivinhar as que dispo a dançar. São palavras e são chaves, e são rimas e são claves, são ritmos agudos, graves. Fico a um passo da prosa, a um passo do poema, gozo como quem goza a vitória do seu lema, desespero na dengosa morte de não ter tema. Ás vezes não me levanto, fico deitado muito tempo, o meu ser passeia astros e vagueia sonhos vastos mas inúteis se entanto esta voz eu não levanto. E assim prolongo o meu pranto que é de mais o que eu canto. Quando não são as miragens e as visões embriagadas que me invadem de contento e desse caminho lento.
Oh, ondas do mar
Oh, aves do meu pensar
Oh, lua amotinada
Oh chuva, noite estrelada.

Saturday, February 05, 2005

Le Jardin

O espanto desta sala sombreada em luz
agarra-se a mim e seduz.



Única fresta para a vida lá fora
nua do som dela
e do vento que a namora.



A janela em frente dela
vê raiar o dia, crescer a aurora
passar o sol dum lado ao outro
escurecer até que morto
brilhem jóias, foz tardia
dos noctívagos da folia.



Pois então a sala enche.
Lentamente vão chegando
cada canto acomodando
nesta sala que os conhece.
É deles o som nascente
os risos a voz fremente
que ás paredes agitando
noite a noite os vai compondo.



Quando a têm de deixar
deixam no ar o seu cheiro
da vontade de ficar.



E a sala adormece
com saudade dos que partem.
Cada canto esmorece
e a madrugada enternece
ansiando novo dia
de sabores e a euforia
que da noite nunca esquece.

Sózinho ao balcão da tasca da esquina

Os quadros desvanecem e aparecem
com a dor e a paixão intrínseca
ao demolir de vidas e ao romper doutras.
A mesma história cruzada de tantas estórias.
Parto sempre para um novo universo
mesmo sabendo esse que me habita
nunca mudará
camaleão transgressor de mim próprio
ou eu próprio transgredido pelos sucalcos
da sua etapa
viagem de tempestades, oásis, paisagens
encantadoras, desertos
Onde não me privo da paixão
ela acontece.

Há sangria nesta casa
como de sangria são feitos os meus sonhos desfeitos
nenhum chega ao fim
e todos têm um fim e um novo recomeço
nessa caminhada que quis de estrada
mas acontece de sabores e novos amores
num périplo errante que não conheço
e nem sei se mereço
ou transpareço
mas teço.

Desvanecem-se os quadros
e surgem outros
laivos outros de outros pincéis
pinceladas pinceladas em telas mutantes
e constantes feiticeiras
no lado esquerdo de um lado esquerdo
qualquer
de uma janela em construção
como um tijolo que serve de massa
à obra do lado esquerdo
que em nenhum lado esquerdo acaba
desse lado esquerdo que nem existe
a não ser na imaterialidade do
pensamento e sentir

Desvanecem-se os quadros e surgem outros
outros quadros outras vagas
outros lugares vagos por preencher
outros cantos vagos no lado esquerdo
que é onde mora o coração que escrevo
escreve não fala escreve
o coração não perco
e assim que o cedo
existe mais um lado esquerdo a pedir-lhe
-- acontece!

Friday, February 04, 2005

Desaprendo o ser pouco a pouco
No reboliço das gáveas
no ultraje das atitudes
este sem parar de mágoas
e desvirtudes

Uma canção faz-se de nós
de teias desembainhadas ao subterfúgio
de querelas e vielas e outras vozes
de retumbares abertos de refúgio

Nunca um momento é um documento
do registo só resiste a memória
tanto registo é impreciso
tanto momento é sinistro
em que quarto persiste a glória?

Há quantos dias não escrevo um poema
há quantos dias não dou espaço à voz
há quantos dias desentendo a sós
a alegria das prosas ou os dilemas

nesta lonjura alta de estar tão só
oriundo das vozes e nelas rarefeito
nesta angústia que me tisna de imperfeito
que num momento é aura e noutro pó.
plosanimais