Friday, March 25, 2005

Salpicado de folhas em branco
pelo marulhar revolto que desenrola a vida
sento-me frente a ti
mergulho nas profundezas longínquas
do meu convés perdido

Tu que não adormeces
senhora dos segredos e das ondas

Nunca febril tarefa conheci
como a de querer pintar e não ser
a tinta das palavras
agarra-se-me ao pincel e seca
antes mesmo que toque a tela

Fico impotente
sem a voz da corrente
seco por dentro
e por fora o texto
não acontece

Noutros momentos abre-se
uma porta e ali outra
janela quem quer ver
a luz está a tempo

É um remoínho de pensamentos
atiram-se ao papel
esfaimados da saudade
libertos da opressão
muda os amordaçara

Deixam chover suas vestes
de gatafunhos querendo
ser corpo
de ideias sem dono
tentando articular-se
fazendo jus à razão
do acto de escrever

Mas se o poema não sai
fica só a dor
e o rasto esquecido de quem não vai

Tuesday, March 15, 2005

A minha televisão passa red hot chili peppers. A minha televisão mostra-me as mais lindas mulheres do mundo. A minha televisão mostra-me o mundo. A minha televisão sabe o que acontece em muito sítio. A minha televisão fala muitas linguas. A minha televisão passa entrevistas com os Faith No More e os Sonic Youth. A minha televisão dá prémios. A minha televisão faz-me rir. A minha televisão desperta-me apetites. A minha televisão surpreende-me. A minha televisão atrai-me. A minha televisão nunca me abandona. A minha televisão ensina-me. A minha televisão aviva a minha perspicácia e a minha criatividade. A minha televisão desperta-me a memória. A minha televisão faz-me sonhar. A minha televisão faz-me pensar. A minha televisão mostra-me a ternura da vida animal. A minha televisão leva-me em viagens. Eu e a minha televisão vivemos juntos. Todos os dias olhamos um para o outro. Ela fala comigo. Eu raramente falo com ela. Mas ela gosta assim. Eu também.
santandread, 1992

pixie e eddy

Monday, March 07, 2005

No fio do serrote

Numa sala cinzenta moravam quatro gatos.
Os quatro eram endiabrados, cada um à sua maneira. Pelo chão abundavam restos dos processos inacabados. A limpeza nunca foi completamente feita. Os restos de comida em sacos de plástico espalhados pelo chão, a areia dos gatos sobrecarregada dos seus dejectos, as fezes secas ou frescas num ou noutro canto da sala, os fragmentos de desperdício ressequidos de diluente, as beatas velhas e as cinzas dos tantos cigarros fumados, as latas destapadas de tinta bolorenta, o exército de micro-mosquitos cruzando no ar a amálgama de odores incómodos.
A desordem era total. Os papéis amontoavam-se por diversos sítios e a falta de relação entre si era evidente.
Caixas de cartão rasgadas, pedaços de fita adesiva usados e encarquilhados, roupa preta suja pisada e desconjuntada repleta de pelos brancos de gato. O chão cinzento marcado pela acumulação incontável de acidentes - nódoas múltiplas, manchas diferentes, borrões diversos.
O caos prolongava-se. As paredes escolhiam determinados cantos para desenvolverem fungos inlaváveis, humidades estaladiças, teias de aranha sem vida. Onde isso não acontecia enchiam-se de letras salteadas, trabalhos plásticos de imagens apocalípticas ou de pura e simples desordem de texturas coloridas.
As noções de higiene e organização haviam sucumbido face à impotência de as proclamar. Os periódicos esforços para reanimá-las e mantê-las, além de infrutíferos na sua totalidade, não eram suficientes para que essas palavras resplandecessem condignamente.
Para os gatos era uma selva que uns exploravam nas suas brincadeiras infantis e outros suportavam não deixando de mostrar o seu desagrado pontual conspurcando ainda mais aqui e ali o que de si já era sórdido e imundo.
Este constante desequilíbrio era causa e sintoma de um outro cada vez maior na rotina quotidiana das mentes humanas que o habitavam. As relações deterioravam-se ao mesmo ritmo do lixo que fermentava, dia após dia, exposto ao sol na varanda do cubículo sem que ninguém desse por ele e o deitasse em local próprio.
Os cheiros concentravam-se, imiscuiam-se, formavam uma neblina invisível e, com a habituação, quase inodora mas presente e incontornável. O meio ambiente, caótico, translúcido, imoral, desenvolvia as condições necessárias à criação de micro-habitats onde florescia a vida de várias espécies de insectos inomináveis, solitários viajantes nos recantos mais insondáveis da sala cinzenta.
Um dia tudo haveria de ruir, ou ser abandonado, ou levar limpeza tal que afastasse para sempre essa abominável força de espaço. E nem os gatos resistiriam.
plosanimais