Monday, March 07, 2005
Numa sala cinzenta moravam quatro gatos.
Os quatro eram endiabrados, cada um à sua maneira. Pelo chão abundavam restos dos processos inacabados. A limpeza nunca foi completamente feita. Os restos de comida em sacos de plástico espalhados pelo chão, a areia dos gatos sobrecarregada dos seus dejectos, as fezes secas ou frescas num ou noutro canto da sala, os fragmentos de desperdício ressequidos de diluente, as beatas velhas e as cinzas dos tantos cigarros fumados, as latas destapadas de tinta bolorenta, o exército de micro-mosquitos cruzando no ar a amálgama de odores incómodos.
A desordem era total. Os papéis amontoavam-se por diversos sítios e a falta de relação entre si era evidente.
Caixas de cartão rasgadas, pedaços de fita adesiva usados e encarquilhados, roupa preta suja pisada e desconjuntada repleta de pelos brancos de gato. O chão cinzento marcado pela acumulação incontável de acidentes - nódoas múltiplas, manchas diferentes, borrões diversos.
O caos prolongava-se. As paredes escolhiam determinados cantos para desenvolverem fungos inlaváveis, humidades estaladiças, teias de aranha sem vida. Onde isso não acontecia enchiam-se de letras salteadas, trabalhos plásticos de imagens apocalípticas ou de pura e simples desordem de texturas coloridas.
As noções de higiene e organização haviam sucumbido face à impotência de as proclamar. Os periódicos esforços para reanimá-las e mantê-las, além de infrutíferos na sua totalidade, não eram suficientes para que essas palavras resplandecessem condignamente.
Para os gatos era uma selva que uns exploravam nas suas brincadeiras infantis e outros suportavam não deixando de mostrar o seu desagrado pontual conspurcando ainda mais aqui e ali o que de si já era sórdido e imundo.
Este constante desequilíbrio era causa e sintoma de um outro cada vez maior na rotina quotidiana das mentes humanas que o habitavam. As relações deterioravam-se ao mesmo ritmo do lixo que fermentava, dia após dia, exposto ao sol na varanda do cubículo sem que ninguém desse por ele e o deitasse em local próprio.
Os cheiros concentravam-se, imiscuiam-se, formavam uma neblina invisível e, com a habituação, quase inodora mas presente e incontornável. O meio ambiente, caótico, translúcido, imoral, desenvolvia as condições necessárias à criação de micro-habitats onde florescia a vida de várias espécies de insectos inomináveis, solitários viajantes nos recantos mais insondáveis da sala cinzenta.
Um dia tudo haveria de ruir, ou ser abandonado, ou levar limpeza tal que afastasse para sempre essa abominável força de espaço. E nem os gatos resistiriam.

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