Friday, March 25, 2005

Salpicado de folhas em branco
pelo marulhar revolto que desenrola a vida
sento-me frente a ti
mergulho nas profundezas longínquas
do meu convés perdido

Tu que não adormeces
senhora dos segredos e das ondas

Nunca febril tarefa conheci
como a de querer pintar e não ser
a tinta das palavras
agarra-se-me ao pincel e seca
antes mesmo que toque a tela

Fico impotente
sem a voz da corrente
seco por dentro
e por fora o texto
não acontece

Noutros momentos abre-se
uma porta e ali outra
janela quem quer ver
a luz está a tempo

É um remoínho de pensamentos
atiram-se ao papel
esfaimados da saudade
libertos da opressão
muda os amordaçara

Deixam chover suas vestes
de gatafunhos querendo
ser corpo
de ideias sem dono
tentando articular-se
fazendo jus à razão
do acto de escrever

Mas se o poema não sai
fica só a dor
e o rasto esquecido de quem não vai

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