Monday, April 18, 2005

Eu e Ela

Da imaculada concepção daquela noite surgiu uma estrela resplandecendo mistério e encanto mesmo junto ao espectro lunar de uma escuridão quase lúcida. Intermitente na multiplicidade dos tons convidava o olhar a demorar-se nela e o sonho a submergir no seu mundo de fogo frio. "Take my hand and lead me to the garden of delight".
O corvo cruzou o ar mesmo em frente ao trajecto que o jipe sulcava. Escavado e moribundo, caminho degradado pelas chuvas de todos os invernos, pelas secas de todos os sóis, lentamente arrepiando as mazelas das únicas quatro rodas que o conheciam. Um corvo pode viver setenta anos.
No fim do percurso estava o farol, contínua e viciosamente fazendo circular o seu foco até onde o éter o pudesse escutar. Ah, se eu pudesse ouvir o som da luz!
Quando caminhava vi de súbito aquele vulto quadrúpede explorando o escuro na vegetação rasteira. Estaquei e quedei-me inerme olhando-a. Ela sentiu-me, estacou também. Por momentos ficámos ali, separados por uns seis ou sete metros, frente um ao outro, fitando-nos nos olhos. Depois ela temeu, pela liberdade ou pela vida, e correu pelo espaço aberto, majestosamente, cauda acariciando o ar num equilíbrio de movimentos perfeito e fascinante. Os meus olhos acompanharam esse bailado admirando-a até perdê-la de vista. Nunca mais a esqueci.

Saturday, April 16, 2005

Este retalho pedaço de mim
este momento de demora e hora vazia
esta inconstância de estilo e verdade fugidia

Sombra do que passo alma contida assomo chama
Peça jogada do palco sem vida voz muda que clama

O rosário é o caminho a sede pura a sina
o macabro a incerteza que aos olhos desafina
esconde-se atrás da cortina não se mostra a ninguém
por capricho ou por vintém resvala repete refina

Sines duas horas da matina

Monday, April 11, 2005

Quero ser o amor de toda a gente que amor meu não tenho nenhum.
Não tenho esses olhos que se denunciam nos meus.
Nem essa boca que se completa na minha.
Nem esse corpo por onde queremos ambos viajar.
Não tenho essa voz que me espera, esse eco do meu caminho, esse strip-tease dos pensamentos.
Quero ser o amor de toda a gente para ver se encontro nele o meu amor feito gente.

Sunday, April 03, 2005

a doença dos olhos é a sede da beleza

Saturday, April 02, 2005

Queria o meu mar de tristezas ser um mar de aventuras
Queriam as minhas molezas rebentar as sepulturas
e sair com as certezas no luar das noites puras
mergulhando nas grandezas e nos gestos das ternuras

Queria a minha visão apagar certos retratos
Queria a mesma prisão partilhar sons abstractos
e nos tons dessa canção viajar os mares mais vastos
ser montanha e ser sertão e acampar nos sonhos castos

E nos beijos da loucura nunca conhecer a hora
nos soslaios da candura vislumbrar a doce aurora
embarcar com a lonjura para as terras da demora
e encontrar a noite escura, prontinha, à minha espera.
plosanimais