Monday, April 18, 2005

Eu e Ela

Da imaculada concepção daquela noite surgiu uma estrela resplandecendo mistério e encanto mesmo junto ao espectro lunar de uma escuridão quase lúcida. Intermitente na multiplicidade dos tons convidava o olhar a demorar-se nela e o sonho a submergir no seu mundo de fogo frio. "Take my hand and lead me to the garden of delight".
O corvo cruzou o ar mesmo em frente ao trajecto que o jipe sulcava. Escavado e moribundo, caminho degradado pelas chuvas de todos os invernos, pelas secas de todos os sóis, lentamente arrepiando as mazelas das únicas quatro rodas que o conheciam. Um corvo pode viver setenta anos.
No fim do percurso estava o farol, contínua e viciosamente fazendo circular o seu foco até onde o éter o pudesse escutar. Ah, se eu pudesse ouvir o som da luz!
Quando caminhava vi de súbito aquele vulto quadrúpede explorando o escuro na vegetação rasteira. Estaquei e quedei-me inerme olhando-a. Ela sentiu-me, estacou também. Por momentos ficámos ali, separados por uns seis ou sete metros, frente um ao outro, fitando-nos nos olhos. Depois ela temeu, pela liberdade ou pela vida, e correu pelo espaço aberto, majestosamente, cauda acariciando o ar num equilíbrio de movimentos perfeito e fascinante. Os meus olhos acompanharam esse bailado admirando-a até perdê-la de vista. Nunca mais a esqueci.

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