Thursday, June 23, 2005

Estou a morrer.
Coço-me na pele e nas entranhas.
E o que coço são as estradas
e os poemas que quis ser.

Saturday, June 18, 2005

Em que tempo vivemos?

Numa época em que o vazio ocupa a massa cinzenta da maior parte das gentes
Numa época em que os jovens optam pela hipnose da música de dança sem mensagem, ultra repetitiva
Numa época em que crescer para ser grande representa obter um diploma, qualquer um desde que seja um diploma, mesmo que não vá de encontro ao talento individual de cada um
Numa época em que os ideais não vão mais longe que a realização financeira e material
Nesta época, revolvo-me eu em contorções e esgares possesso pelo meu íntimo que me impede de normalizar-me e caminhar sossegado por entre as gentes com a viagem quase assegurada.
Nunca chego a embarcar completamente nem a ficar no mesmo sítio.
Mas o sofrimento cresce, a dor desenvolve e os dias não se vislumbram melhores após os sacrifícios.
Sou malfadado ou mal me fado?
Sou mal dito, mal me dizem ou mal me digo?
Sou omisso ou cobiço?
Sem resposta não desisto nesta caminhada cega.
Pouca glória, muita queda.
Erros idos, repetidos, mas a força subsiste e o alor me segreda que existe, vez em quando, o rumor dos seus lábios diz:
'- RESISTE.'
E sem ele eu vivo triste, ele a causa e o efeito do meu real despiste.

Os dias passam e as famílias são educadas a telenovelas e programas sensacionalistas ou sentimentais.
Os putos vão deixando entranhar nos ossos músicas que repetem insistentemente o mesmo ritmo e as mesmas frases.
Enquanto o povo se entretém, eles, os senhores do poder, das decisões, vão mexendo as suas peças, longe dos olhos comuns, preparando-lhes o caminho que sirva os interesses do jogo e, portanto, deles, os jogadores.
Nós não somos, visivelmente, a revolução mas precisamos dela e de mais gente acordada.

30.novembro.1994

e agora? 18.junho.2005
Derramo as horas na mesa atapetada de pegadas outonais

Friday, June 17, 2005

A vida de um poeta não se constrói de palavras mas de olhares.
As palavras são tormenta que a sua alma inventa pra reinventar os mares.
São os olhos que comandam e a caneta executa do impulso só uma parte.
Se o primeiro vem no vento os seguintes são penosos e sedentos de tal arte.

Tuesday, June 14, 2005

Orbitando esta túnica mutante
dispersa confusão de motes
nas palavras rompentes em catadupa
anseio e náusea dissidentes
no crepúsculo adiado das horas
na acérrima confusão das vontades
na coragem esbatida do salto
nos filamentos que entrecortam as verdades
no augúrio do termo inconcludente
na brutalidade das hesitações precedentes
nas respostas caladas da inocência
na perplexa catárse das evidências
na angústia permanente do sobressalto
insatisfação corrosiva predestinada
melancólica repetição cíclica
labirinto da mesma face nas mesmas escadas

havia um canto articulado em esperanto
ninguém o entendia, ouvia-se
continuamente a um canto, era
a verdade procurada mesmo ali
inalcançada, tão à mão da vida
cantada e preferida mas contida

Thursday, June 02, 2005

A LIBERDADE ESCASSEIA

A liberdade escasseia, os impostos sobem, o buraco abre.
A guerra não para, o som da guitarra distorce em catárse.
Os gritos aumentam, protestos rebentam, lição aprendida.
E tu alucinas, depois desatinas co'a puta da vida.

Morreram três homens, operários das obras, debaixo da terra.
Explodiu outra bomba e fez mais mortos que a última guerra.
O preço do ar deixou sufocar e subiu a galope.
O sô Presidente assinou contrato co'a tropa de choque.

A caça fiscal já apanhou mal uns mil condenados.
O povo trabalha e sofre e batalha e não vê ordenados.
As penas são mais e as interdições estão a aumentar.
Tu já não tens nada, não sabes, não viste, mas tens que alinhar.

Os rios morreram, a fauna extinguiu-se, a flora apodrece.
As ondas do mar trazem sal no ar que só adoece.
Os filhos dos homens não sabem quem foi e não têm saída.
E tu alucinas, depois desatinas, e pagas co'a vida.
plosanimais