PARTE I
era uma vez um menino que tinha um pião e sempre o trazia na mão. gostava de ver o pião a girar, a girar, mas não o sabia lançar. quando o pião girava o menino ascendia e passeava sonhos distantes, inalcançáveis, olhando a corrida louca das voltas que o pião dava. eram outras as cores, outros os sentidos, outras as formas que visitavam a mansão do menino do pião quando este girava sem fim.
ops!
mas o pião não girava sem fim. e o menino sabia disso. mas enquanto ele girava nem disso o menino se lembrava rodopiado ele próprio num carrocel de mil cores e formas e idéias e sabores. quando o pião caía, quando o pião parava, tudo parava, tudo tinha fim, e o menino acordava, acordava, e o sorriso que lhe pintava a face adormecia, morria, transformava-se num lago calmo de tristeza por tudo acabar assim.
a tristeza breve chamava a ânsia que levava o menino a procurar alguém que ao pião soubesse lançar. queria, outra vez, esse mundo sem fronteiras nem limites voltar a visitar, voltar a habitar. e, aqui ou ali, lá o menino encontrava quem ao pião soubesse lançar. e, de novo, viajava. e, de novo, esquecia que há sempre um fim, que para tudo há um fim. olhos fixos no rodopio louco do pião, projectados para um distante além, o menino voltava a viver verdadeiramente, a ser-se pleno no momento, a ser-se em pleno do momento, sem nas idéias esconder antes ou depois, sem co'as idéias trazer passados ou futuros. e ali, nada tinha fim. o fim do sonho e da viagem era a queda do pião. se ele nunca caísse...
se ele nunca caísse, se ele nunca parasse, o sonho, a viagem, o momento nunca haveriam de terminar. mas uma vez o pião caiu, parou e o menino despertou e procurou alguém que ao pião soubesse lançar. procurou. era indo à beira-mar. encontrou outro menino. mais alto, mais forte e mais gordo que se ofereceu para lho lançar. o menino, contente de o ir ver girar, passou-lhe o pião e a corda prá mão aguardando seu pulsar. confiante o menino estava sem saber desconfiar. o menino mais forte e mais alto fingiu ao pião enrrolar e atirou-o, com força, ao mar. o menino, boquiaberto, ficou a olhar. toda a linha que o pião desenhou rasgando a ar o menino acompanhou em seu olhar que o tentava desmesuradamente agarrar. o pião caiu no mar. o menino mais alto, mais forte e mais gordo ria mas o menino sem o pião na mão nem o ouvia. o pião tinha caído no mar. o pião tinha caído no mar. era preciso ir-lo buscar. o menino correu, em direcção às ondas do mar. correu. para o mar. o menino entrava no mar. corria, seu corpo desaparecia coberto p'las ondas do mar. o menino não sabia nadar. o menino não sabia nadar.
PARTE II
era uma vez um menino
que estava a pensar
encontrar outro menino
nesse lado do mar,
o outro lado do mar.
e de tanto pensar
jesus (seja lá ele quem
ou o que fôr:
homem pregado na cruz,
pretexto da causa d'alguém,
filho de um deus maior
ou mesmo de adamastor)
recompensou-o.
estava o menino sentado n'areia
olhando o mar
sózinho a pensar
quanto de bom seria
nessa mesma areia encontrar
um menino que um dia
o viesse acompanhar
em toda a sua tropelia
brinquedo de solidão
com o ar, a areia e o mar.
estava o menino a pensar!
que esses dias tão vazios
e tão calmos, e tão frios
poderiam animar se
outro menino houvesse
para rir, e falar, e brincar.
assim, como ali estava
envolto p'la solidão
e co'os olhos cheios a ondas de mar
os dias custavam a passar
estava o menino a pensar
olhando o mar.
uma onda, lá longe, se avivava
e subia, e subia
e erguia em sua crista
uma mão que apelava
ou dormia, ou jazia.
e o menino, co'os olhos cheios de mar,
notou a mão a acenar
e levantou-se
para melhor poder observar.
era a onda que trazia
uma dádiva do mar
pra quebrar a solidão
pensava o menino contente então.
as ondas, uma a uma, ripostavam
na areia que de cama
se tornava travesseira.
nenhuma era a última nem a primeira.
e aquela que se erguia
e subia, e subia
já quase num leito trazia
o que o menino ansioso
estava n'areia a esperar:
um outro menino nesse lado,
o outro lado do mar.
à medida que se aproximava
a onda que o transportava
acalmava e descia
como se não quisesse magoar
o menino que trazia
a est'outro lado do mar.
e o menino que na praia
vivia com a solidão
já nem dela se lembrava
já nem solidão sentia
esperando que uma após outra
as ondas dessem lugar
àquela que lhe trazia
essa dádiva do mar.
e a onda, deleitosa,
finalmente se espraiou
deixando dócil na praia
um vulto de menino
que a ess'areia doou.
o menino que a esperava
correu embriagado
deixando para trás a solidão.
era um menino encharcado
que na mão trazia agarrado
um brinquedo, um pião.
ah solidão, solidão
esta esperança que côr dara
ao cinzento de sua canção
mesmo assim evaporara
havia sido traída
não encontrara a saída.
o menino que o mar trouxera
era um menino sem vida
só lhe restava o pião.